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Como você conheceu o Budismo?
xxxEu tive a oportunidade de conhecer o budismo em 1991. Antes, havia apenas lido sobre o assunto. Quando conheci o Rinpoche, achei que ele era uma pessoa imponente no sentido da seriedade. Uma pessoa firme que parecia um rei muito interessante. Ao chegar ao Minascentro, para o Congresso Holístico Internacional, ele começou a recitar mantras. Eu nunca tinha ouvido uma voz com aquela potência, parecia um trovão e fiquei muito impressionado. Quando acabou a palestra eu subi ao palco, cumprimentei-o, falei que tinha gostado muito dele e que a gente voltaria a se encontrar. Em novembro do mesmo ano, ele voltou ao Brasil para dar um workshop chamado “Treinamento para a Paz”, em Tremembé, São Paulo e após ouvir os seus ensinamentos, comecei a achar muito interessante o que ele estava falando. Mas mesmo depois desse encontro, eu ainda não tinha me tornado budista.
E a intenção de criar o Centro, nasceu como?
xxxNesse encontro em São Paulo, conversei com a minha esposa Beth e decidimos procurar o mestre. Falei que havia gostado muito dos ensinamentos e que gostaria de levá-lo para Belo Horizonte, cidade pela qual eu tinha uma gratidão muito grande, para que meus amigos tivessem a oportunidade de ouvi-lo. Ele então comentou que estava muito velho e que morava nos EUA, e que seria muito caro vir até aqui, mas que indicaria alguém para vir em seu lugar. Em julho de 1992, nós recebemos um fax que informava que ele visitaria o Brasil começando por Belo Horizonte. Quando esteve aqui, ele nos disse que não passávamos de crianças no caminho espiritual e que cuidaria de nós. Ele apoiou nossa idéia e então começamos um centro de meditação.
Como foi escolhido o nome para o Centro?
xxxEu pedi ao Rinpoche para colocar no nosso Centro o nome de sua mãe, como uma homenagem, porque se não fosse por ela, ele não estaria aqui. Ele riu e falou que ela tinha 21 nomes e disse “tudo bem, escolhe um” (a mãe de Rinpoche era reconhecida como uma emanação de Tara, aspecto feminino de Buda) e o nome escolhido foi Dawa Drolma. Depois da criação do Centro, ele passou a vir ao Brasil pelo menos uma vez por ano e eu o convidava para vir a Belo Horizonte, onde transmitiu muitos ensinamentos até que em 1996, ele decidiu se mudar para o Brasil.
Você já estava organizando um grupo aqui?
xxxNós todos estávamos muito empolgados com a idéia de termos um centro de meditação. O Flávio e a Sandra, do Instituto Fênix, que apoiaram esse movimento, nos emprestaram uma sala na Rua Mato Grosso sem nenhum ônus para o Centro e, durante muito tempo, o local serviu para a gente meditar às segundas-feiras. De lá pra cá, não paramos mais, esta meditação continua sempre às segundas, agora na Av. N. Sra. do Carmo.
Antes de você encontrar o budismo você já fazia alguma prática espiritual? Já buscava por algum caminho?
xxxFui criado por uma avó muito fervorosa, que me educou no catolicismo. Ela me ensinou a rezar e ter fé e foi por este meio que estabeleci minha formação espiritual. Mais tarde, conheci o espiritismo Kardecista. Freqüentei o centro Manuel Felipe Santiago, no Santo Antônio e foi muito bom. Quando conheci o Chagdud Tulku Rinpoche e comecei a ter contato com o budismo, muitas coisas me chamaram a atenção, mas o que me fez de fato tomar a decisão de me tornar um praticante do budismo tibetano foi o ensinamento que diz que se eu não tirar de dentro de mim a raiva, a inveja, o orgulho, o medo, o ciúme, nada muda. Quando eu ouvi isso e percebi que no budismo havia métodos para desenraizar isso pensei: é por aqui que vou! Como eu ainda estou cheio de raiva, de ciúme, de inveja, de orgulho não dá para sair. Ainda estou desenraizando estas emoções, parece que os galhos são grandes e a raiz é funda.
O grupo, como uma sanga (assembléia de praticantes budistas), começou com uma intenção ingênua?
xxxQuando nós nos encontramos com o Rinpoche todo mundo ficou encantado com o mestre e com aquilo que ele estava trazendo e com essa possibilidade muito bacana de beneficiar a todos. Então, considero que inicialmente esse encantamento é que nos mobilizou profundamente e até hoje eu continuo encantado de ver como é que algo pode ser tão benéfico e como já fui beneficiado pelas práticas em minha vida...
Você vê essa evolução também na sanga?
xxxSim, vejo. O que eu percebi na sanga, desde o início até agora, é que o budismo é um caminho muito bonito pra se falar, mas muito difícil de seguir, pois exige coisas que para nós são muito complicadas, já que somos pessoas muito infantis. É o que o Rinpoche falou: “que nós não passávamos de crianças no caminho espiritual”. Porque nós não temos disciplina, tudo é mais importante... nós confiamos mais no Samsara do que no Dharma e isso nos faz perder tempo. Então, quando olho lá no início, nós estávamos empolgados, mas este é um caminho que pra dar resultado no sentido de amadurecimento da mente depende de muita perseverança, de muita disciplina. Porque trabalhar a mudança de hábitos numa mente não é fácil. E nós gostamos de resultados rápidos em tudo. Mas aquela alegria lá do início de termos encontrado uma referência no budismo é mantida até hoje.
Como é essa evolução com relação à construção do templo?
O grupo foi se mantendo e com a continuidade imaginamos que seria possível construir um templo de meditação. Eu refleti que deveria existir uma construção física, algo para os sentidos, para que os ensinamentos não se perdessem. Conseguimos a doação de um terreno lá em Casa Branca, no condomínio da Aldeia da Cachoeira das Pedras, feita pelo Flávio Dalva Simão, e foi um excelente início. Começamos a fazer festas, rifas, doações, fazer de tudo para levantar fundos para começarmos a construção. Em 1997, já havíamos conseguido um pouco de dinheiro e começamos a construção do Templo. Hoje já temos a estátua de Padmasambhava, uma estátua de grande porte, quase dois metros, que foi feita em 1994 e que foi consagrada por Chagdud Tulku Rinpoche, nós temos livros e textos sagrados que contêm todos os ensinamentos do Dharma. Esses livros vieram da China, foram uma doação de Chagdud Tulku Rinpoche para Belo Horizonte, e ao longo desse tempo outros implementos ligados à prática foram sendo incorporados. E agora nós vamos construir uma estupa, uma construção que simboliza o corpo do Buda onde serão depositadas as relíquias do nosso mestre. Ele faleceu em 2002 e parte das suas cinzas virão para Belo Horizonte.
O que mudou na sua vida desde o início do caminho até agora?
Quando minha filha era mais jovem, hoje ela tem 23 anos, fiz a ela a seguinte pergunta: “o que você acha que mudou em mim?” Ela disse: “acho que você está mais paciente”. Eu achei que isso foi muito legal. E em 2002, na última visita do Rinpoche em Minas, estávamos em Formiga, e a Beth, minha esposa, comentava com a Lama Sherab (tradutora do Rinpoche e nossa professora) que eu estava muito ansioso, muito agitado. Rinpoche então disse que elas estavam enganadas e que ele via em mim uma pessoa muito paciente que conseguia manter um grupo meditando e em harmonia, e que só uma mente paciente consegue fazer isso. Nem eu sabia que estava com essa paciência toda que ele falou. Outro aspecto que mudou na minha vida é que estou com menos medo de enfrentar as coisas da realidade. Ainda existe medo em mim, mas está muito menor. E isso pra mim é o mais importante.
E o Dawa Drolma?
Eu acho que o Dawa Drolma tem uma característica diferente de todos os centros que eu conheci. Quando começamos não havia tanta divulgação como hoje, então ninguém sabia nada sobre o budismo. Começamos de uma maneira muito pura e encontramos um professor de elevadíssimo nível. Tudo que ele plantou, brotou, porque ele pegou “uma terra” muito boa que era a nossa disponibilidade, a nossa motivação, a nossa pureza, não estávamos misturados a conceitos místicos e religiosos, não comparávamos e não avaliávamos o que serve ou o que não serve. Ouvíamos e acreditávamos nele, e com o tempo verificamos que aquilo funcionava. Acho que isso fez do Dawa Drolma um centro de praticantes onde as pessoas são alegres sem o peso de uma tradição. Como não me considero sério, no sentido de carrancudo, fundamentalista, essa minha alegria e meu jeito de ser acabam ajudando o centro a continuar leve pra quem chega. A minha motivação continua a mesma de quando eu conheci Chagdud Tulku Rinpoche, e acho que isso ajuda quem está chegando. As pessoas não me veêm só falar, elas me vêem fazer e fazem junto comigo.
Você é o grande guru do Dawa Drolma...
Não. Sou apenas um dos mais empolgados do grupo com essa idéia de iluminar. Eu quero ficar competente igual ao Rinpoche para, como ele, beneficiar a todo mundo. Eu brincava com o Rinpoche com aquele slogan da vodca: - eu sou você amanhã. Ele ria e eu falava que era sério e então ele dizia: é isso mesmo. Eu quero imitar o meu mestre e me tornar uma pessoa com as qualidades necessárias para beneficiar a todos. Sinto que consigo motivar as pessoas, acho que isso é uma qualidade que tenho, porque acredito no que faço, assim como vi o Rinpoche acreditando no que ele fazia.
Uma avaliação e uma dedicação desse papo.
Eu nunca imaginei que aqui no Brasil, em Minas Gerais, iríamos ter um Centro de Budismo Tibetano consagrado e com tantos praticantes. Era o que eu desejava, mas não imaginava isso. E agora estamos começando um jornal, o que também é motivo de empolgação. Tudo isso existe por causa da motivação e da alegria de todos que se encontraram com Rinpoche e de todos que procuram o centro hoje e que gostam de ajudar e apoiar essas atividades e mantêm a prática, pois nós somos um centro de praticantes. Agradeço ao Rinpoche por ser essa grande inspiração para minha vida. Agradeço a todos pelo esforço e a contribuição de cada um desde 1991, sem os quais esse centro não existiria. Nossa motivação e receptividade, essa disponibilidade interna de acreditar nos ensinamentos do Buda e de mantermos a prática é a coisa mais importante. |
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